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A prática da Auto-Observação

July 24, 2011

A mente não é outra coisa senão o “Eu-Pensamento”. A mente e o ego são uma só coisa. As outras faculdades mentais tais como o intelecto e a memória são apenas isso. Mente, intelecto, o arquivo das tendências mentais e o ego todos são apenas a mente. São como nomes dados a um homem de acordo com suas diferentes funções. A alma individual nada mais é do que esta alma ou ego.
A idéia de personalidade ou pensamento é também a raiz ou origem de todos os outros pensamentos, pois cada idéia ou pensamento surge apenas como pensamento próprio e não é percebido como existir independentemente do ego. O ego, portanto, exibe a atividade pensante.

Investigue, então, a causa última do “Eu”, ou personalidade. De onde é que este “Eu” surge? Procure-o no seu íntimo. E em conseqüência disso verá que ele desaparece. Isto é a busca da sabedoria. Quando a mente investiga de maneira incessante sua própria natureza evidencia-se que não existe tal coisa chamada mente. Este é o caminho direto para todos. A mente é somente pensamentos. De todos os pensamentos o pensamento “Eu” é a raiz. Portanto a mente é somente o pensamento “Eu”. A origem do “Eu-Pensamento” é a nossa própria origem e sua morte é a morte da personalidade. Após o aparecimento do “Eu-Pensamento”, a errônea identidade com o corpo surge.

Livre-se do “Eu-Pensamento”. Enquanto o ego estiver vivo existirá sofrimento. Quando o “ego” cessa de existir não há mais sofrimento.
Indague então a quem pertencem esses pensamentos. Eles então desaparecerão. Eles têm sua origem no simples “Eu-Pensamento”. Fixe-se nele e eles desaparecerão.
A existência do ego fenomenal é transcendida quando você “mergulha” na fonte da qual o “Eu-Pensamento” surge.
Quando o quarto está escuro a lâmpada é necessária para iluminá-lo e permitir aos olhos que vejam os objetos. Para ver o sol nenhuma lâmpada é necessária, basta dirigir o olhar em direção ao autoluminoso sol. O mesmo ocorre com a mente. Para ver os objetos, a luz refletida da mente é necessária. Para ver o coração é suficiente que a mente se volte para ele. Desse modo a mente se perde e o coração brilha. A essência da mente é apenas consciência. Quando o ego, no entanto, a domina passa a funcionar como razão, pensamento ou faculdade sensorial. A mente cósmica não sendo limitada pelo ego, não percebe coisa alguma separada dela e é somente consciência. É isto que a bíblia quer dizer com o “Eu sou o que sou”. Quando a mente perece na suprema consciência do Eu de cada um, saiba que todos os poderes, como o poder de querer (incluindo o poder de fazer e o poder de conhecer) desaparecerão totalmente, sendo percebido como uma imaginação irreal surgindo na própria forma de consciência.
Ao se realizar o Eu, nada mais resta para ser conhecido porque é a perfeita bem-aventurança, o tudo.
A realidade é simplesmente a eliminação do ego. É destruir o ego se você busca sua identidade. Como o ego não é uma entidade, ele desaparecerá automaticamente e a realidade brilhará por si mesma. Este é o método direto, enquanto que os outros métodos conseguem apenas reter o ego.
Se sua atenção se distraí com outros pensamentos, volte-a em direção ao Eu-Pensamento tão logo perceba seu desvio.
Nos estágios iniciais a prática da atenção no sentido do “Eu” é uma atividade mental que toma forma de um pensamento ou percepção. Conforme a prática vai se desenvolvendo o “Pensamento-Eu” passa a experimentar um sentido subjetivo do “Eu” e, quando este sentido deixa de se ligar aos pensamentos e objetos, desaparece completamente. O que resta é uma experiência de ser no qual o sentido de individualidade cessou temporariamente de operar. A experiência pode ser intermitente no início mas com a repetição da prática torna-se cada vez mais fácil de se atingir e conservar. Quando a auto-indagação atinge esse nível aparece uma consciência de ser livre de esforço. A esse nível o esforço individual não é mais possível, pois o “Eu” que faz o esforço cessou temporariamente de existir. Ainda não é a auto-realização, pois o “Eu-Pensamento” reaparece periodicamente mas é o mais alto nível de prática espiritual.
Esta prática de auto-atenção ou consciência do “Eu-Pensamento” é uma sutil técnica que ultrapassa os usuais métodos repressivos de controlar a mente. Não é um exercício de concentração, nem tem por meta suprimir os pensamentos, apenas invoca a consciência da fonte de onde surgiu. O método e o objetivo da auto-indagação é “morar” na fonte da mente e ser consciente daquilo que realmente se é ao se desviar a atenção daquilo que não se é. Nos estágios iniciais o esforço no sentido de transferir a atenção dos pensamentos para o próprio pensador é essencial, mas uma vez que a consciência do sentido do Eu se estabeleceu de modo firme, o esforço posterior a isso é contra-producente. Daí em diante trata-se mais de um processo de “ser” do que de “fazer”, um processo de ser sem esforço do que um esforço para ser. Para ser aquilo que já se é, é algo sem esforço, pois a existência (o ser) está sempre presente e é sempre experienciado. Por outro lado pretender ser algo que não se é (exemplos o corpo e a mente) requer um esforço mental contínuo, muito embora o esforço esteja quase sempre num nível subconsciente. Segue-se que, em estágios mais avançados da auto-indagação, o esforço livra a atenção da experiência de ser, enquanto a cessação do esforço mental o revela.
Finalmente, o Eu não é descoberto como resultado de se fazer alguma coisa, mas apenas por ser.
A auto-indagação não deve ser entendida como uma prática para ser feita em determinadas horas e em certas posturas. Ela deve prosseguir mesmo durante nosso caminhar, independentemente do que se estiver fazendo.
Não existe qualquer conflito entre o trabalho e a auto-indagação e a mesma pode ser executada sob quaisquer circunstâncias e não há necessidade alguma de se abandonar as atividades cotidianas em favor de uma vida totalmente dedicada à auto-indagação.
Focalize este Eu-Pensamento e indague o que ele é. Quando esta indagação se tornar forte em você, então não poderá pensar em outros pensamentos.
O que acontece quando você faz uma séria auto-indagação em busca do Eu é o desaparecimento do “Eu-Pensamento” e então algo diferente surge de suas profundezas e se encarrega de você, mas não é o Eu que inicia a indagação. Este é o Eu real, o Supremo Eu. Não é o ego. É o próprio Ser Supremo.
Fixe-se em você mesmo, isto é, no “Eu-Pensamento”. Quando seu interesse o mantém nesta simples idéia, os outros pensamentos serão automaticamente rejeitados e desaparecerão.
A mente se submeterá somente por meio da indagação: “Quem sou eu?” O pensamento “Quem sou eu?”destruindo todos os outros pensamentos será finalmente destruído tal como a vara que é usada para atiçar o fogo na pira funerária. Caso outros pensamentos surjam e a pessoa deixar que se apoderem dela, fazer a pergunta: “A quem eles surgiram?” Que importa quantos pensamentos possam surgir? No mesmo momento que cada um surja; a pessoa de modo atento, fizer a pergunta “A quem este pensamento surgiu”, terá como resposta: “A mim.” Se fizer então a indagação “Quem sou eu?”, a mente retornará a sua fonte (o Eu) e o pensamento que surgiu também desaparecerá. Ao se repetir esta prática o poder da mente em habitar sua fonte aumentará.
Enquanto persistirem na mente tendências em direção aos objetos dos sentidos, a pergunta “quem sou eu?” é necessária. À medida que os pensamentos surjam a pessoa deverá aniquilar todos eles, aqui e ali através da auto-indagação no seu local de aparecimento. Não dar atenção a outras idéias significa desapego ou desinteresse. Não abandonar o Eu (Divino)é sabedoria. Na verdade esses dois aspectos – desapego e conhecimento – são a mesma coisa.
Tal como um pescador de pérolas prendendo-se a uma pedra mergulha fundo no oceano e a encontra, qualquer pessoa que mergulhar em seu interior com desapego poderá encontrar a pérola do Eu. Se a pessoa recorre de modo ininterrupto à lembrança de sua real natureza será o suficiente para atingi-lo. Indagando a si mesmo: “Quem está escravizado?” e ao mesmo tempo conhecendo sua real natureza é a própria libertação. Manter a mente sempre fixa somente no Eu é também denominado “auto-indagação”.
Para a prática da auto-indagação, não há necessidade de renunciar à atividade cotidiana. Se você meditar por uma ou duas horas todos os dias poderá se incumbir de seus deveres. Se você meditar de modo correto então a corrente mental, induzida pela meditação, continuará a fluir durante seu trabalho. É como se existissem duas maneiras de expressar a mesma idéia; a mesma linha que se observa na meditação será expressa em suas atividades. Conforme você a pratique verá que sua atitude com relação às pessoas, acontecimentos e objetos se modificará. Suas atividades tenderão a se desenrolar de acordo com sua meditação. O homem deveria renunciar a seu egoísmo pessoal que o prende a esse mundo. Abandonar o falso Eu é a verdadeira renúncia.
Determinar um tempo para meditação é uma atitude para meros iniciantes no caminho espiritual. Um homem adiantado começará a gozar a profunda beatitude quer esteja trabalhando ou não. Enquanto suas mãos estiverem na lida social, ele manterá sua cabeça na pura solidão.
Para isto você terá que fazer a si mesmo a pergunta “Quem sou eu?” Esta investigação levará por fim à descoberta de algo no seu interior que se acha além da mente. Resolva este problema e todos os outros problemas serão solucionados. A consciência é o “Eu”. Realize-o e isto é toda verdade.
O que é o ego? Indague. Se é procurado desaparecerá como um fantasma. À noite um homem pode imaginar que há um fantasma a seu lado por causa de um jogo de sombras. Se olhar mais de perto descobrirá que o fantasma não se acha realmente lá, e aquilo que ele imaginou ser um fantasma era apenas uma árvore ou uma estaca. Se ele não tivesse examinado mais de perto, o fantasma poderia assustá-lo. Tudo o que se requer é olhar de perto e o fantasma desaparecerá. O fantasma nunca esteve lá. O mesmo acontece com o ego. Enquanto a pessoa não observá-lo de perto ele continuará a dar aborrecimento. Mas quando a pessoa o procura, verá que não existe.
A paz é nosso estado natural. É a mente que obstrui o estado natural; investigue sobre o que é a mente e ela desaparecerá. Não existe tal coisa como mente separada do pensamento. No entanto, por causa da emergência do pensamento, você imagina algo de onde ele surge e o denomina de mente. Quando você investiga para saber o que é, perceberá que na verdade não existe tal coisa chamada mente. Quando a mente desaparece, você realiza a eterna paz.
Agora você está se identificando com o falso Eu, que é o “Eu-Pensamento”. Este Eu-Pensamento aflora e submerge, enquanto que a verdadeira expressão do Eu acha-se além de ambos.
O verdadeiro “Eu” não está aparente e o falso “Eu” está desfilando. Este falso Eu é o obstáculo ao seu correto conhecimento. Descubra de onde surge esse falso Eu. E a partir daí ele desaparecerá. Você será então o que realmente é, isto é, o Ser Absoluto.
A fonte do “Eu-Pensamento”. Isto é tudo o que a pessoa deve fazer. o universo existe em função do “Eu-Pensamento”. Se isto desaparece, a miséria também acaba. O falso “Eu” acabará somente quando sua fonte for encontrada. E mais: as pessoas freqüentemente perguntam como se controla a mente. Eu então lhes digo, “mostre-me a mente e você saberá então o que fazer.” O fato é que a mente é apenas um feixe de pensamentos. Como você pode extingui-la ao pensar em fazer algo ou por meio de um desejo? Seus pensamentos e desejos são integrantes e parcelas da mente. A mente é simplesmente engordada a partir do surgimento de novos pensamentos. Portanto é tolice tentar matar a mente por meio da própria mente. O único meio de obtê-lo é encontrar sua fonte e fixar-se nela. A mente então desvanece por si mesma.
Investigue o assunto e descubra a veracidade da afirmação. O resultado levará à conclusão de que o mundo se acha na consciência subjetiva. O Eu é pois a única realidade que permeia e envolve o mundo. Uma vez que não exista dualismo, os pensamentos não surgirão para perturbar sua paz. Isto é a realização do Eu. O Eu é eterno e também é realização.
Pedir à mente que mate a mente é como pretender que o ladrão se faça de policial. Ele irá com você e pretenderá apanhar o ladrão, mas nada será conseguido. Assim você deve introverter-se e verificar de onde a mente surge e assim ela cessará de existir. É sabido e admitido que somente com a ajuda da mente ela poderá ser morta. Mas ao invés de admitir dizendo que a mente existe e que quer matá-la, deverá procurar a fonte de onde surge e descobrirá que ela não existe mesmo. A mente voltada para fora resulta em pensamentos e objetos. Voltada para o interior torna-se o Eu.
Você não precisa eliminar o “Eu” errado. Como pode o “Eu” eliminar a si mesmo? Tudo quanto você necessita fazer é buscar sua origem e estabelecer-se lá. Seus esforços só poderão ir até esse ponto. Então aquele que se acha acima tomará conta de tudo. Você nada poderá fazer. Nenhum esforço será necessário para alcançá-lo.
o que buscamos não é algo que deverá surgir como novo. É somente aquilo o que é eterno mas que se acha desconhecido devido às obstruções. É isto que buscamos. Tudo que precisamos é remover as obstruções. Aquilo que é eterno é desconhecido por causa da ignorância, a ignorância é a obstrução. Supere a ignorância e tudo estará bem. A ignorância é idêntica ao “Eu-Pensamento”. Encontre sua fonte e ele evaporará.
A iluminação do ser dissipa a treva da ilusão para sempre. Temos que lutar contra as tendências mentais há muito tempo acumuladas. Todas desaparecerão.
O grau de ausência de pensamentos é a medida do seu progresso em direção à auto-realização. Mas a auto-realização em si não admite o progresso. É sempre a mesma. O “Eu” permanece sempre realizado. Os obstáculos são os pensamentos. O progresso se mede pelo grau de remoção dos obstáculos que impedem que entendamos que o Eu está sempre realizado. Desse modo os pensamentos devem ser analisados com objetivo de perceber a quem eles surgem. Assim vá a sua fonte de onde eles não surgem.
A auto-indagação certamente não é uma fórmula vazia e é mais do que a repetição de qualquer mantrã. Se a auto-indagação (quem sou eu?) fosse apenas uma pergunta puramente mental, não seria de muito valor. O objetivo real dela é focalizar toda a mente em sua fonte. Não se trata, portanto, do fato de um “Eu” buscando um outro “Eu”. Muito menos expressa uma fórmula vazia pois envolve uma intensa atividade de toda a mente a fim de se manter na pura autoconsciência.
Qual é sua real natureza? A realidade única e inalterável é ser. Até que você realize aquele estado de puro ser, deverá prosseguir na auto-indagação. Se você tiver se estabelecido neste estado não haverá mais preocupações. Ninguém buscará a fonte dos pensamentos se eles não surgirem.
Seja o que você realmente é. Não há nada que desça ou se torne manifestado. Tudo o que se necessita é perder o ego. Aquilo que existe está sempre presente. Até mesmo neste momento você é ele. Você não é algo separado dele. O branco da mente é percebido por você. Você está aí para poder percebê-lo. O que é que você está esperando? Seja você mesmo e nada mais! Logo que você nasce você consegue algo. Se você consegue algo terá que deixá-lo. Portanto, livre-se de toda essa redundância. Seja o que você é. Veja quem é e permaneça no Eu.
Sua obrigação é ser e não ser isto ou aquilo. “Eu sou o que sou” resume toda verdade. O método se resume nas palavras “permaneça quieto”. Que significa permanecer quieto? Significa destruir o ego. Isto porque qualquer aspecto ou forma é causa de problemas. Livre-se das noções de “eu sou isto ou aquilo”. E o que se requer para realizar o Eu é permanecer quieto. Que há de mais fácil do que isso?
A verdade sobre a própria pessoa vale a pena ser pesquisada e conhecida. Tomando essa verdade como alvo de sua atenção, o indivíduo deve conhecê-la de maneira aguçada no coração. Este conhecimento sobre a própria pessoa será revelado somente à consciência que for aquietada, clara e livre da atividade da agitada e sofredora mente. Saiba que a consciência que sempre brilha é o coração na feição do “Eu” sem forma, o qual é conhecido pela pessoa que permanece quieta, sem pensamentos sobre qualquer coisa existente ou não existente. Estar só é a perfeita realidade.
Ramana Maharshi
http://njro.fot.br/blog/2010/09/a-pratica-da-auto-observacao/
via: http://existenciaconsciente.blogspot.com
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